Aê, todo mundo

Seja bem vindo. Não espere boas maneiras ou mensagens edificantes!
Lembre-se: esse papo de 'só o amor constrói' é balela: quem constrói é o pedreiro.

quarta-feira, abril 16, 2008

Os segredos da cidade

Um dia qualquer. Problemas pra resolver, horários pra cumprir e lá estou eu andando apressada pelas ruas da minha cidade. Apressada e furiosa, pra ser honesta.
Logo que desembarco no centro da cidade, um sujeito maltrapilho e magro, grita, agita os braços e sapateia na calçada. Exatamente aquilo que eu tinha vontade de fazer. Era só um mendigo, um deserdado, um excluído, um pedinte sem documento, sem dinheiro e sem dignidade. Um ser transparente pra maior parte das pessoas. E lá estava ele a expressar sua raiva ou o seu contentamento – vá lá saber! – da forma que eu, cidadã, trabalhadora, eleitora, consumidora, pagadora de impostos não tive capacidade pra fazer.
Então, fazem com que eu pipoque de guichê em guichê dentro da agência bancária (só porque eu tenho bunda grande e cabelo arrepiado tão pensando que eu sou peteca?) e nada se resolve. Outro problema, outro caminho. Desta vez ouço tambor e chocalho. A curiosidade faz com que eu apresse o passo. Pra minha surpresa é uma cerimônia indígena. Meninos guaranis tocam tambores e chocalhos pra que as meninas dancem seu passo monocórdio e sem graça. Eles tem na faixa dos 14-16 anos, as meninas, que são em quatro, terão, no máximo, 9 anos. Não sei do que se trata, sinto tristeza e alegria ao vê-los dançando em meio a balbúrdia de sexta-feira no centro da cidade.
Mais pressa e mais problemas. Prevendo que meu emputecimento fará com que eu esgane o primeiro que se atravessar na minha frente, no caminho tomo um pouco do meu elixir:
Araqueto. Araqueto é uma arara azul de metro e meio. Mascote de pet shop. Paro pra bater um papo com ele. Arara, arara, arara. Balançamos a cabeça um pro outro, Araqueto abre as asas pra mim e eu abro os braços pra ele. Hei, quer lugar melhor pra creditar um primata do que numa pet shop? Rumo ao ponto de ônibus uma figura longílinea, alta e negra vem em minha direção. Bonito ele. Terá no máximo 25 anos anos, usa uma miniblusa verde musgo (ou seria verde sujo?) e doma sua juba com uma bandana também sujinha. Distribui sorrisos e acenos aos passantes. Muito requebrado, pára na minha frente e, sorrindo, pergunta/afirma: todas as pessoas tem seu valor, né moça?!
Respondo que sim. E sigo meu caminho. Então era isso, ao fim e ao cabo, as grandes revelações estão nas pequenas coisas. E a vida (ou Deus, Alá, Javé, Krshna, seja lá o que for) escolhe os mensageiros mais inusitados para as grandes verdades.

15 comentários:

Clarissa Dalloway - aka A.Fróes disse...

YEAH!

Jens disse...

Oi Ane.
Putz, que legal. Até com mensagem edificante no final. Fiquei com os olhos marejados.
Como eu suspeitava, por baixo desta couraça irônica, além da verve corrosiva, bate um coraçãozinho sensível, amoroso e solidário.
Estou emocionado. Bué, bué, bué!
***
Dê lembranças minhas do Diabo Loiro.
***
Um beijo.

Moacy Cirne disse...

Sim, é verdade, "as grandes revelações estão nas pequenas coisas". Ou, muitas vezes, nos pequenos gestos. Um beijo.

Alex Oliveira. disse...

Muito emocionate seu texto. Coisas cotidianas nele inserido, transmitindo uma mensagem significativa e sensível.

Parabéns. º°

Engraçadinha disse...

Meu post de hj, também foi inspirado nesse conformismo do povo!

Jens disse...

Oi Ane.
Láudano é uma bebida porrada, de alto teor alcóolico, feita à base de ópio. Era usada com fins "medicinais" até a primeira metade do século passado (inclusive por madames "nervosas" - seja lá o que isto signifique). Dizem que chapava legal. Tive curiosidade em provar, com fins eminentemente científicos, of course, mas não encontrei. Acho que não fazem mais.
Bj.

Jens disse...

PS: o Juventude vem aí. Dá-lhe, Inter!

André Lasak disse...

Belo texto!


E aproveitando o elogio, depois de uns bons meses voltei à ativa com o Quimera Ufana…

Apareça lá pra tomar uma cervejinha. ok?

Beijão!

Sheherazade disse...

Nada como andar a esmo, observando as pessoas e sacando as mensagens que cada uma nos traz. Além disso, eu tenho uma mania horrorosa de ouvir as conversas paralelas que escuto rua afora (algumas vezes até dô pitaco, se bobear)... Cada doido com a sua mania!
Essa comparação com a peteca foi demais!

Beijos, Ane!

jorginho da hora disse...

Que bom que vc tenha compreendido a mensagem que lhe foi enviada. Estou falando da parte final do texto.

Um abraço, amiga.

Cadinho RoCo disse...

É assim mesmo que tudo acontece quando pensamos não acontecer nada.
Cadinho RoCo

parayba disse...

Sim as boas e ertenas coisas da vida estão em pequenas coisa que vivemos e não apenas sobrevivemos em nosso dia a dia.

Mas deixa eu me reapresentar.
Eu sou um antigo leitor seu que andou meio afastado dos blogs, mas que retorma as origens.

Beijos
Michael Meneses!

parayba disse...

Sim!
As boas e eternas coisas da vida estão em pequenas emoções que vivemos e não apenas sobrevivemos em nosso dia a dia.

Mas deixa me reapresentar.
Eu sou um antigo leitor seu que andou meio afastado dos blogs, mas que retorma as origens.

Beijos
Michael Meneses!

2:25 PM

Flávio disse...

Taí... achei gozada, a ligação com a peteca! :) Bom fim de semana, viu?

Yvonne disse...

Ane querida,

Estou tomando a liberdade de enviar um comentário padrão para todos os blogs que eu amo de paixão. O motivo é que resolvi encerrar o meu blog por motivos pessoais. Não tenho mais condições de participar da blogosfera do jeito que eu gosto, mas não vou ficar para todo sempre distante. Por favor, leia o meu último post que explica a minha razão.

Beijocas

Yvonne